11 de fevereiro de 2010

DEPOSIÇÕES INTRACELULARES

INTRODUÇÃO
Alterações no metabolismo celular podem levar à deposições de quantidades anormais de substâncias nas células. Essas substâncias se dividem em três categorias básicas: componente celular normal (água, lipídios, proteínas e carboidratos), substância anormal (exógena - ex. minerais - ou endógena - ex. amilóide) e pigmento (ex. melanina). Os principais mecanismos que levam à deposição intracelular são: produção normal ou aumentada de substância endógena associada a uma velocidade inadequada de seu metabolismo para removê-la; acúmulo de substância endógena normal ou anormal devido a defeitos genéticos ou adquiridos do metabolismo, armazenamento, transporte ou secreção da substância; e deposição e acúmulo de substância exógena anormal.

LIPÍDIOS

Esteatose: Também chamada de degeneração gordurosa, consiste na deposição anormal principalmente de triglicerídeos em células parenquimatosas. Ocorre com mais frequência nos hepatócitos uma vez que essas células são responsáveis pelo metabolismo de lipídios (defeitos de natureza variada desde a entrada de ácidos graxos à saída de lipoproteínas levam à essa deposição). É também vista no coração, músculos e rins. Causas comuns de esteatose são: toxinas (ex. álcool), desnutrição protéica, diabetes melitus, obesidade e anóxia.

Esteatose hepática. O fígado pode aumentar de tamanho, pesando de 3 a 6 kg, e tornar-se amarelado, mole e gorduroso. Em casos leves pode não se alterar macroscopicamente. Referência: http://www.pathology.com.br/degeneracoes/Esteatose_53_mod.jpg

Ao microscópio são observados vacúolos no citoplasma que podem ser múltiplos e pequenos (microgotas) progredindo até a coalescência (macrogotas), quando o núcleo celular é empurrado para a periferia. Ocasionalmente, células contíguas podem se romper e seus glóbulos de gordura coalescem formando cistos gordurosos.

Esteatose hepática, HE. Referência: http://www.kuma.us/images/etc/img/liver5.jpg

Colesterol e Ésteres de Colesterol: Os depósitos dessas substâncias aparecem por vários mecanismos em diferentes procesos patológicos, tais quais: aterosclerose, xantomas, inflamação e necrose, colesterolose e Doença de Niemann-Pick, tipo C.

Na aterosclerose, macrófagos e células musculares lisas na camada íntima de grandes vasos apresentam vacúolos contendo principalmente colesterol e ésteres de colesterol, conferindo uma aparência espumosa a essas células (células espumosas).

Acúmulo de colesterol e ésteres de colesterol em células espumosas e fenda única formada por ésteres de colesterol extracelulares cristalizados. O estímulo de citocinas inflamatórias a partir da lesão endotelial e outros fatores como a hiperlipidemia e a oxidação de lipoproteínas levam à absorção dessas substâncias por essas células. Referência: http://library.med.utah.edu/WebPath/jpeg5/CV010.jpg

O xantoma é outra manifestação do acúmulo dessas substâncias em macrófagos. Ocorrem geralmente no tecido conjutivo subepitelial da pele e nos tendões e são provocados por hiperlipidemia.

Xantoma tendinoso. Referência: http://www.scielo.br/img/revistas/abd/v83n5/a12fig01.jpg

Em processos inflamatórios e necróticos podem ser encontrados macrófagos espumosos em razão da fagocitose do colesterol das membranas celulares. Em grandes quantidades, tais macrófagos dão uma coloração amarelada à inflamação.

Na colesterolose, encontramos macrófagos com grande acúmulo de colesterol na lâmina própria da vesícula biliar.

Colesterolose. Referência: http://www.med.ufro.cl/Recursos/Patologia/CursoPatologiaGeneral/Patologia2001/Cd/M63a1.jpg

Na Doença de Niemann-Pick tipo C, o gene NPC-1 é afetado. Uma proteína envolvida no tráfego do colesterol é então afetada, provocando o acúmulo deste em vários órgãos.

Fosfolipídios: Acúmulos desses lipídios podem ser encontrados em células necróticas na forma de figuras de mielina.

PROTEÍNAS

Gotículas de reabsorção nos túbulos renais proximais: Surgem em afecções que envolvem proteinúria. As proteínas não filtradas pelos glomérulos são reabsorvidas no túbulo proximal em vesículas que, após se fundirem a lisossomos formam fagolisossomos.

Aumento da síntese de proteínas de plasmócitos: Há um grande aumento na produção de imunoglobulinas. são chamados de corpúsculos de Russell (inclusões eosinofílicas arredondadas).

Corpúsculos de Russell em linfonodo. Referência: http://anatpat.unicamp.br/Dscn26692++.jpg

Transporte intracelular e secreção de proteínas críticas defeituosos: Mutações na alfa1-antitripsina resultam numa dobra defeituosa da proteína, provocando o acúmulo de intermediários no retículo endoplasmático do fígado. A ausência de alfa1-antitripsina causa enfisema.

Glóbulos de alfa1-antitripsina na periferia de hepatócitos, em laranja pelo método da imunoperoxidase específica. Referência: http://www.hepcentro.com.br/images/A1AT-2.jpg

Na fibrose cística, uma mutação na proteína do canal de cloro atrasa a dissociação de uma chaperone (proteína de estabilização e correção de intermediários protéicos), levando a um dobramento anormal e perda de função.

Na hipercolesterolemia familiar, mutações no receptor da lipoproteína de baixa densidade (LDL) interferem no seu desdobramento, acumulando-se.

Acúmulo de proteínas anormais: Doenças de acúmulo de proteínas ou proteinopatias são representadas por algumas formas de amiloidose. Surgem a partir de proteínas anormais ou dobradas incorretamente. Os depósitos podem ser intra ou extracelulares.

Referência: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-72992004000300022&script=sci_arttext

*Alteração Hialina:
Refere-se a uma formação vítrea, homogênea e rósea intra ou extracelulares em cortes histológicos corados pela hematoxilina e eosina. Gotículas de reabsorção, corpúsculos de Russell e alteração hialina de Mallory do alcoolismo são exemplos de depósitos intracelulares de hialina.

Alteração hialina de Mallory no alcoolismo. Referência: http://anatpat.unicamp.br/DSCN3516+.JPG

GLICOGÊNIO

Anormalidades no metabolismo da glicose ou glicogênio levam a um aumento no depósito intracelular de glicogênio, o qual se mostra como vacúolos claros no citoplasma. Afecções que levam ao acúmulo de glicogênio são principalmente o diabetes melitus e as doenças de armazenamento de glicogênio ou glicogenoses.

Glicogenose hepática tipo I ou Doença de von Gierke. Causada por uma alteração na glicose-6-fosfatase, enzima que degrada glicogênio. Referência: http://anatpat.unicamp.br/DSCN4580+.JPG

Para evidenciar o glicogênio no tecido é necessário usar fixadores não aquosos e a coloração de carmin de Best ou a reação do ácido periódico de Schiff (PAS) (cora de rosa-violeta).

PIGMENTOS

Pigmentos Exógenos: O mais comum é o carbono, capturado pelos macrófagos alveolares e transportados para linfonodos regionais. O acúmulo de carbono nesses tecidos é chamado de antracose.

Antracose em linfonodo. Referência: http://www.fo.usp.br/lido/patoartegeral/images/pig4.jpg

Pigmentos utilizados na tatuagem são fagocitados por macrófagos na derme e neles permanecem.

Referência: http://www.zhippo.com/HartfordCountyHOSTED/images/gallery/Dragon_Full_Back_Tattoo-m.jpg

Pigmentos Endógenos:
A lipofuscina (lipocromo, pigmento de desgaste ou da senecência) é composta por polímeros de lipídios, fosfolipídios e proteínas. Tem cor marrom-amarelada, é finamente granular e geralmente perinuclear. Indica lesão por radicais livres e peroxidação lipídica. É comum no fígado e coração de idosos, em pacientes gravemente desnutridos ou com caquexia neoplásica.

Lipofuscina em fígado. Referência: http://library.med.utah.edu/WebPath/jpeg4/LIVER019.jpg

A melanina é um pigmento marrom-escuro derivado da oxidação da tirosina pela tirosinase nos melanócitos.

Melanócitos nas setas, pele. Referência: http://www.fo.usp.br/lido/patoartegeral/images/pig8.jpg

A hemossiderina é um pigmento que varia do amarelo-ouro ao marrom. Deriva da hemoglobina. É composta por um agregado de micelas de ferritina. Quando há uma sobrecarga sistêmica de ferro, temos uma condição chamada hemossiderose. Suas principais causas são: aumento da absorção de ferro na dieta; diminuição na utilização do ferro; nas anemias hemolíticas; e em transfusões sanguíneas. O acúmulo extremo de ferro nos tecidos está associado à hemocromatose, condição que lesa principalmente fígado, coração e pâncreas.

Hemossiderina em rim, após episódio de hemoglobinúria. Referência: http://www.fmv.utl.pt/atlas/ap_urina/fig_049.jpg

Hemossiderina corada pela reação histoquímica do azul-da-prússia na hemossiderose, fígado. Referência: http://library.med.utah.edu/WebPath/jpeg4/LIVER018.jpg

A bilirrubina também é derivada da hemoglobina, porém não tem ferro. É o principal pigmento da bile. Quando em excesso nas células e tecidos provoca a icterícia.

Bilirrubina de cor pardacenta fagocitada por macrófagos em hepatite viral. Referência: http://anatpat.unicamp.br/Dscn3296++.jpg

Outro pigmento endógeno é o ácido homogentísico, de cor preta que aparece em pacientes com alcaptonúria. É depositado na pele, tecido conjuntivo e cartilagem, caracterizando a ocronose.

Referência: http://www.scielo.br/img/revistas/rbr/v46n5/a14fig02.jpg

REFERÊNCIAS
1. Robbins & Cotran; Patologia: Bases Patológicas das Doenças; 7ª Edição, 2005
2. http://www.pathology.com.br/degeneracoes/Esteatose_53_mod.jpg
3. http://www.kuma.us/images/etc/img/liver5.jpg
4. http://library.med.utah.edu/WebPath/jpeg5/CV010.jpg
5. http://www.scielo.br/img/revistas/abd/v83n5/a12fig01.jpg
6. http://www.med.ufro.cl/Recursos/Patologia/CursoPatologiaGeneral/Patologia2001/Cd/M63a1.jpg
7. http://anatpat.unicamp.br/Dscn26692++.jpg
8. http://www.hepcentro.com.br/images/A1AT-2.jpg
9. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-72992004000300022&script=sci_arttext
10. http://anatpat.unicamp.br/DSCN3516+.JPG
11. http://anatpat.unicamp.br/DSCN4580+.JPG
12. http://www.fo.usp.br/lido/patoartegeral/images/pig4.jpg
13. http://www.zhippo.com/HartfordCountyHOSTED/images/gallery/Dragon_Full_Back_Tattoo-m.jpg
14. http://www.fmv.utl.pt/atlas/ap_urina/fig_049.jpg
15. http://library.med.utah.edu/WebPath/jpeg4/LIVER018.jpg
16. http://anatpat.unicamp.br/Dscn3296++.jpg
17. http://www.scielo.br/img/revistas/rbr/v46n5/a14fig02.jpg

Rafael Machado Mendes
Acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Ceará
Integrante da Liga de Patologia da UFC

3 comentários:

  1. Achei o máximo o blog! Ajudou bastante nas minhas revisões, e as imagens estão ótimas.
    Parabéns e obrigada.

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  2. Prezados
    Gostaria de usar a imagem relacionado com Xantoma disponivel neste blog para fins de ensino de saúde em Moçambique e sem fins comerciais nem benefícios próprios. Pelo que peço a devida autorização. Resposta pode ser enviada para este email: jorgea@itech-mozambique.org

    Assina: Jorge Arroz (Médico)

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  3. o que são depósitos intracelulares(intracitoplasmaticos)?exemplifique.

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